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O Globo /
Data:
20/11/2006
Matéria do O
Globo
Para
entender
esse baião
Livro conta
a história
da relação
conturbada
de Luiz
Gonzaga e
Gonzaguinha
"Você me
respeita, eu
respeito
você, e a
coisa mais
bacana da
minha vida é
você. Você é
Gonzaguinha.
Eu sou
Gonzagão.
Encontramos
esse slogan.
Eu me
envaideço
muito de
você, sabia?
Nunca me
pediu nada.
Te dei um
violão
velho,
barato.
Nunca me
preocupou.
Eu sou pai
postiço, mas
sou pai e
tenho sido
pai, não é
verdade?". O
inédito
depoimento
faz parte da
biografia "Gonzagui
nha e
Gonzagão -
Uma história
brasileira",
da escritora
paulistana
Regina
Echeverria,
a mesma de
"Furacão
Elis" e
"Cazuza: só
as mães são
felizes".
enternecido
testemunho,
pro ferido
num raro
momento de
de sembaraço
do cantor e
sanfoneiro
pernambucano,
foi extraído
de 20 horas
de
entrevistas
gravadas
pelo seu
filho
carioca,
Luiz Gonzaga
do
Nascimento
Júnior,
entre 1979 e
1980, quando
excursionaram
juntos
fazendo o
show "Vida
de
viajante". O
plano de
Gonzaguinha,
interrom
pido por um
acidente
fatal de
carro em
1991, era
ver
publicado um
livro em
louvor ao
pai. Sua
vontade se
concretizará,
pelas mãos
de Regina,
dia 27, com
o lançamento
na Livra ria
Unibanco
Artplex, em
Botafogo.
- Fiz o
livro, mas
não diria
que foi em
louvor a
alguém.
Contei as
histórias do
pai e do
filho, as
coi sas boas
e ruins -
defende ela.
Menino foi
criado por
amigos do
pai
Ao longo das
310 páginas,
toma- se
conhecimento
da
conturbada
re lação
entre os
artistas.
Quando o fi
lho nasceu,
em 1945,
Gonzagão já
ti nha 25
discos
gravados
como san
foneiro e
estreava
como cantor.
Aos 2 meses,
o bebê foi
afastado da
mãe, a
cantora
Odaléia
Guedes dos
Santos, que
contraíra
tuberculose.
Foi criado
no Morro de
São Carlos,
no bairro do
Estácio, por
Leopoldi na
de Castro
Xavier e seu
marido,
Henrique
Xavier
Pinheiro, o
Baiano do
Violão,
amigos de
Gonzagão.
Foi com o
pai de
criação e
não com o
biológico
que o menino
deu os pri
meiros
passos na
música.
Quando o
filho tinha
3 anos de
idade, o Rei
do Baião se
casou com
outra
mulher, e
Odaléia
morreu.
- Como
estava
sempre fora
do Rio
fazendo
turnês e
tanto a sua
no va mulher
quanto a
sogra
rejeita ram
Gonzaguinha,
ele teve de
dei xar o
filho sob os
cuidados de
Leo poldina
e Xavier. O
casal levava
o garoto
para visitar
o pai, então
não houve
corte de
relações.
Mas quan do
o menino
começou a
crescer, em
contato com
a
malandragem
do Morro de
São Carlos,
e a ficar
indis
ciplinado,
Gonzagão o
botou num
colégio
interno. O
velho
acreditava
que o filho
não daria em
nada, cha
mava-o de
comedor de
bolacha.
Gonzaguinha
precisou
mostrar ao
pai que
podia vencer
na vida, que
tinha
talento. Seu
primeiro
público foi
o pai. Foi
para ganhar
seu respei
to e seu
amor que ele
batalhou tan
to, e os
conquistou -
conta
Regina, que
passou dois
anos
realizando a
pesquisa
para o
livro.
As longas
entrevistas
feitas por
Gonzaguinha
com o
próprio pai,
no fim da
década de
1970, foram
uma valiosa
fonte de
informação,
cedida à
Regina pela
viúva do
cantor, Lele
te, e seus
quatro
filhos.
Livros e re
portagens já
publicados e
conver sas
diretas com
Gonzaguinha,
de quem
ficou amiga,
também ajuda
ram a autora
a enriquecer
a obra.
- Conheci
Gonzaguinha
quan do fiz
uma grande
reportagem
com ele em
1979, para a
capa da
revista
"Veja". A
princípio,
achei que
não
conseguiria
fazê-la,
pois ele era
carrancudo e
falava pou
co. Aliás,
essa era uma
de suas três
características
marcantes.
Era também
um conhecido
pão- duro e
mulherengo.
Mas ele viu
que a
entrevista
lhe traria
benefí cios
e foi se
abrindo. A
última vez
que o vi foi
no enterro
do pai (em
1989), que
fui cobrir
como repór
ter, e ali
ele tratou
mal a
imprensa
também -
lembra
Regina.
Sucesso veio
com "Explode
coração"
Para
complementar
o trabalho,
a escritora
entrevistou
muita gen te
que conviveu
com os
biografa
dos. Ivan
Lins, por
exemplo, con
tou ter
aprendido
harmonia com
Gonzaguinha.
Os dois se
conhece ram
no fim da
década de
1960, na Rua
Jaceguai 27,
na Tijuca,
ende reço do
médico
Aloísio
Porto Car
reiro,
freqüentado
também por
Lucinha
Lins, César
Costa
Filho,Aldir
Blac outros
Quem levou
Gonzaguinha
para lá foi
a amiga
Ângela Leal,
sua vizinha
na Ilha do
Governador,
onde ele mo
rava com o o
pai
biológico -
con vívio
iniciado
quando ele
tinha 16
anos, numa
casa em
Miguel
Pereira. O
capítulo
"Rua
Jaceguai 27"
fala dessa
turma, a do
MAU (Movimen
to Artístico
Universitário)
e desse
período, em
que
Gonzaguinha
ga nhou o
primeiro
lugar no II
Festival
Universitário
de Música
Popular da
Tupi, com a
canção "O
trem", sob
vaias. O
sucesso
popular,
contudo, só
veio uma
década
depois, em
1979, com o
disco
"Gonzaguinha
da vida" e a
música
"Explode
coração",
interpretada
por Maria
Bethânia.
-
Gonzaguinha
se engajou
no movimento
político-estudantil
de esquerda,
e isso foi
mais um
ponto de
conflito com
o pai, que
era de di
reita e
tinha
passado nove
anos no
Exército.
Foi no tempo
de quartel
que Gonzagão
comprou, em
presta ções,
sua primeira
sanfona, de
um
caixeiro-viajante.
Ele estava
em Mi nas e,
depois de
pagar tudo,
foi re ceber
o
instrumento
em São
Paulo. Era
um golpe. A
loja não
existia. Da
li, ele foi
para um
hotel, com
dinhei ro
contado. O
filho do
dono do ho
tel tinha
uma sanfona
igual à que
ele queria.
Gonzagão
gastou tudo
o que tinha
para
comprá-la -
conta
Regina, que
fez outras
descobertas
curiosas,
como uma
gravação do
velho de
"Pra não
dizer que
não fa lei
das flores",
hino contra
a ditadu ra.
- Ele gravou
a música sem
sa ber seu
significado.
Ela aponta
mais uma
diferença
entre pai e
filho, para
além das
convicções
políticas:
- O velho
cantava em
comí cios de
qualquer
partido,
bastava que
lhe
pagassem. Já
Gonzagui nha
foi
engajado.
Foi tão
censura do
quanto Chico
Buarque, mas
fa zia
modificações
nas letras
das músicas
e conseguia
as libera
ções. Era um
malandro
carioca,
criado no
morro, numa
época em que
a
contravenção
era o jogo
do bicho e a
prostituição,
e não o trá
fico de
drogas e
armas.
No livro,
descobrimos
que Gon
zaguinha,
ainda
criança,
avisava os
bicheiros
quando a
polícia
chega va.
Função
semelhante a
dos 'fo
gueteiros' e
'soldados'
do tráfico
hoje. O que
leva à
terrível
pergun ta,
extrabiográfica:
quantos
Gonza
guinhas se
perderam nas
violentas
favelas dos
últimos
anos?
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