
O trio de pé de serra
contra o forró eletrônico
A peleja
da sanfona, zabumba e triângulo, representantes da música regional autêntica,
contra a vulgaridade e o frenesi histérico das 'bandas' eletrônicas
José Nêumanne
O paraibano
Antônio Barros é um ídolo da música regional junina no Nordeste: compôs mais de
600 canções, muitas das quais foram sucessos absolutos de intérpretes como Luiz
Gonzaga, o Rei do Baião, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, Três do Nordeste
e Ney Matogrosso (Homem com Agá). Mas isso não evitou que protagonizasse um
episódio no mínimo contraditório para um artista de sua importância: foi
contratado para abrir o show cuja atração principal era a banda Cascavel, da
qual ele, sua parceira e mulher Cecéu e a filha dos dois, a cantora Maíra, nunca
ouviram falar. No entanto, a cidade de Aroeiras, no interior da Paraíba, estava
em polvorosa com a chegada da banda e ele recebeu o cachê e instruções rigorosas
para deixar o palco assim que a banda chegasse. Ao fazê-lo, testemunhou o
frenesi histérico com que a atração principal da noite foi recebida por seu
público. O fato marcante registrou a transição do forró de pé de serra, cultuado
por ele e outros grandes artistas, como Santanna Cantador, Flávio José, Nando
Cordel, Dominguinhos e outros, para o forró eletrônico, produzido no Ceará.
Capitaneadas por um empresário pra lá de bem-sucedido residente em Fortaleza,
bandas com instrumentos eletrificados e nomes semelhantes, formadas por
instrumentistas anônimos, todos funcionários do mesmo patrão, dominam a
programação musical das emissoras de rádio e televisão e reinam absolutas nos
palcos do interior do Nordeste nas festas juninas. Manoel Gurgel, o imperador do
forró cearense, se dá ao luxo de propor parcerias aos grandes compositores
regionais, numa tentativa de cooptá-los, da mesma forma como faz com
programadores de emissoras de AM e FM em praticamente todas as cidades dos nove
Estados nordestinos. Mas pelo menos nisso ele ainda não obteve êxito.
Ao contrário, os representantes da música regional junina autêntica no Nordeste
começam a reagir contra a invasão do forró eletrônico. E acabam de encontrar um
aliado absolutamente inesperado... na Suíça. Tudo começou em Patos, no sertão e
no meio do mapa da Paraíba, cidade onde se diz que se pode fritar ovos no
cimento da calçada, tão quente se faz presente o sol por lá. Pierre Landot,
herdeiro de um grupo multinacional de indústrias farmacêuticas, se instalou em
sua zona rural, onde estabeleceu uma fazenda para criar bovinos, ovinos e
caprinos. Com os peões instalados em sua propriedade, ele aprendeu a amar os
trios de forró de pé de serra formados por sanfona, zabumba e triângulo. E os
apresentou a seu amigo cineasta Bernard-Roberto Charrue, que acaba de produzir o
longa metragem Paraíba, Meu Amor, cujo título foi inspirado na canção homônima
de Chico César, nascido um pouco além de Patos, em Catolé do Rocha, nas
proximidades de Brejo do Cruz, berço de Zé Ramalho.
O cineasta suíço registrou em imagens coloridas o inesperado encontro do
acordeonista de jazz francês Richard Galliano, elevado ao panteão dos maiores
instrumentistas da Europa, com o sanfoneiro pernambucano Dominguinhos, herdeiro
reconhecido pelo Rei do Baião e herói do europeu. O duelo entre o jazzista e o
forrozeiro se deu no palco principal do lugar onde se realiza o que se chama 'o
maior São João do Mundo': o Parque do Povo, em Campina Grande. O francês também
acompanhou Chico César na canção-título e contracenou com dois sanfoneiros
paraibanos, Pinto do Acordeon, que mora em João Pessoa, e Aleijadinho de Pombal,
cidade que fica entre Patos e Catolé do Rocha.
Concluído o preito cinematográfico ao forró autêntico, em plena temporada de
resistência contra o forró eletrônico de Manoel Gurgel, o resultado foi
apresentado em Karlsruhe, na Alemanha. E com tal êxito que está sendo prevista
ainda este ano uma 'noite do forró', no Festival de Jazz de Montreux, na Suíça,
com os protagonistas do documentário. Um dia depois de o filme ter sido lançado
no Cine Bangüê, no Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa, todos
estes artistas populares se reuniram com mais 50 forrozeiros na estréia do filme
no auditório da Federação das Indústrias da Paraíba (Fiep), em Campina Grande.
Para lá acorreram Flávio José, apontado por Dominguinhos como seu herdeiro; o
patriarca Antônio Barros com suas Cecéu e Maíra; Santanna Cantador, natural de
Juazeiro de Padre Cícero e com um timbre muito semelhante ao de Gonzaga; e
outros astros do forró de pé de serra, para os quais a vulgaridade do duplo
sentido pornográfico das 'bandas' eletrônicas (como a Calcinha Preta) não é
somente uma questão de decência, mas de sobrevivência.
O filme de Charrue não tem a qualidade do documentário de Wim Wenders sobre o
resgate da música tradicional cubana graças ao espetáculo produzido pelo
guitarrista americano Ry Cooder, Buena Vista Social Club. Mas pode ser que ele
venha a se tornar no ponto de partida para o resgate da mesma autenticidade que
o autor da trilha sonora de Paris, Texas evitou que se perdesse no Caribe,
impedindo que o forró de pé de serra seja sepultado no sertão pelo comercialismo
urbano das bandas de Manoel Gurgel.
José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde
Fonte:
http://txt.estado.com.br/editorias/2008/03/22/cad-1.93.2.20080322.15.1.xml